Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 9 pessoas, entre colegas no colégio. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos.
Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem.
É possível odiar um filho? O óbvio “não” aqui parece incerto. A questão que fica após lermos Precisamos falar sobre o Kevin é a resposta para nossa primeira indagação: É possível perdoar? Lionel Shriver escreveu um livro cruel. Tão cruel que em minha primeira tentativa parei de le-lô antes mesmo de chegar à centésima página. Agora agradeço por ter sido um pouco mais forte e meses depois ter retomado a leitura. Por que? Porque eis aqui um dos melhores livros que já li. Ao contar a história – já tão recorrente que nos parecer banal – de um adolescente que mata 9 pessoas em sua escola sem dó, sem motivo aparente, por diversão, Lionel leva o leitor a questionar não só a sociedade em que vivemos como também, nossos próprios sentimentos. Aqui a relação de ódio e o amor existente em uma relação familiar é minuciosamente destrinchada, nos fazendo, em alguns momentos,… enjoar (é, acho que essa é a palavra). Como Martha Medeiros escreveu para a Revista O Globo, o livro “é uma bofetada a cada página. Nunca gostei de apanhar, mas esse livro me nocauteou e ainda terminei dizendo quero mais“.
A cima de tudo, Precisamos falar sobre o Kevin é uma crítica ácida e impiedosa ao modo de vida norte-americano e o modelo de perfeição onde eles acreditam estar inseridos.
No final, resta outra pergunta: É possível perdoar a sociedade onde vivemos?
É leitura obrigatória!
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